quinta-feira, 10 de abril de 2008

Pensar as Cidades | Professor Costa Lobo

Sou obrigado a partilhar convosco parte da intervenção que li do Professor Costa Lobo, feita no VI Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Planeadores do Território e publicada na revista Planeamento. É um texto descontraido que, para quem ainda não conhece o professor, revela bem as suas excelentes capacidades como orador [existe uma pequena biografia aqui]. Vale a pena ler e, mais importante ainda, pensar as Cidades a partir do que se segue.

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Começamos a pensar que para elas [as cidades] conseguirem competir têm que ter grandes superfícies comerciais. Os holandeses não quiseram. É duvidoso se é bom. Os alemães estão a criar impostos sobre as grandes superfícies. Sacam os impostos e o que é que vão fazer com esses impostos? Vão colocá-los no comércio tradicional de bairro. Porque há muitas pessoas que não podem ir até ao grande centro comercial. Há muitas pessoas que, de facto, se habituaram. Metem-se no carro, porque ainda estamos na sociedade do carro, e vão fazer as suas compras semanais. Mas há pessoas que não podem fazer isso. Portanto essas, coitadinhas, sujeitam-se ao comércio que resta no bairro, que está cada vez mais pobre, cada vez mais sem nada, cada vez mais caro. Os alemães encontraram um sistema de ajudar esse comércio tradicional, comércio de bairro, que é tão importante para tanta gente, pessoas de mais idade, jovens, enfim, e quaisquer pessoas que não tenham aquela civilização do carro como obrigatória... Eu penso que o comércio tradicional é necessário. Cuidado, não o façam desaparecer. Se o plano é feito só pelas pessoas que são os técnicos, que estão na força da vida, que têm os seus carros, que se deslocam de um lado para o outro, esses não reparam que é necessário. É como na América: aqueles grandes subúrbios de casinhas isoladas por aí fora, umas atrás das outras, servem bem a pessoa que tem o seu carro e que vai para o seu clube, que vai para o seu trabalho, estão para ali com um vizinho de um lado, com um vizinho do outro, mais ou menos abandonados no deserto americano. Portanto cautela, essa não é a tradição europeia, ou também queremos ser americanos? Acho que não.

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Cautela com isto. Será que as áreas centrais não são mais aquele espaço aberto, permanentemente aberto, onde a pessoa pode ir? Aqui tem-se feito o possível... A gente vai lá para Lisboa, lá para a Baixa Pombalina e não está fechado, mas está quase, porque de facto porta sim, porta não, está fechado. E a outra também! Portanto temos que ver se conseguimos encontrar outras soluções, e era tão fácil. Então lá em Lisboa era tão fácil que a área central fosse recuperada. Mas falta muita coisa. E a meu ver a primeira coisa que falta é o espírito associativo do próprio comerciante. Está muito ligado a processos antigos de fazer comércio, e não se sabe associar nem inovar. E não se sabendo associar é-se apanhado por uma grande multinacional, ou por um grande investidor que faz uma grande superfície, e passam a estar todos subordinados à vontade do dono daquela grande superfície. Se em vez de esperarem ser escravizados pelo grande dono as pessoas se associassem teriam outra força.


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Uma pequenita referência só aos transportes. Temos aqui um “smart” pequenino, cá em baixo... Por muito pequenino que seja o “smart”, o carro é sempre qualquer coisa que ocupa muito espaço. Eu por exemplo ocupo mais ou menos 1/6 de um metro quadrado. Os carros ocupam cerca de 25 m2 para incluir a manobra, o abrir das portas, e se tivermos que ter um espaço no sítio onde se trabalha, outro em casa e outro no sítio onde vamos fazer as compras, 3 vezes 25 dá 75 m2, portanto contra aquele meu 1/6 de um metro quadrado, dá 6 vezes 75, dá qualquer coisa como algumas centenas de vezes mais, em relação à pessoa. Portanto acho que devemos ter muita cautela a ver como é que dominamos a questão da economia do carro. Eu ouvi, acho que foi anteontem, numa zona histórica, umas pessoas a defenderam que queriam o carro, outras a dizerem que não querem lá carros de maneira nenhuma. É uma zona conflituosa. Como urbanistas o que é que nós temos de fazer? Temos de encontrar uma terceira solução. E temos de encontrar uma fórmula que resolva os problemas. Porque é que eu quero o carro? Porque é que eu não quero o carro? Muitas vezes é porque as pessoas têm encetado a chamada guerra errada. Se a certa altura tiver uma rua onde cabem 20 carros, e tiver lá 40 pessoas que têm carro. Eu insistir que a câmara tem de lá deixar pôr os carros é uma guerra errada. Não vai ser possível! Ou eu mato o meu vizinho, ou qualquer coisa assim... Não é possível! Portanto as pessoas têm de encontrar guerras que sejam correctas. Hoje o poder público, a população, tem muita força. Mas, façam guerras certas, não façam guerras erradas. Se for preciso reivindiquem os transportes públicos, reivindiquem o estacionamento a um km de distância... um quilómetro? Então depois tinha que ir a andar 10 minutos! Mas se essa for uma solução possível e a outra não for solução? Como é que se está melhor? Com uma solução ou com uma não solução? Portanto, tem de se fazer com muita criatividade, com muita procura de criatividade, de mediação activa. Cuidado com o mediar conflitos onde as pessoas têm posições opostas! Temos de mediar mais do que estar ao meio, temos de inventar propostas que sejam completas e que respondam às diferentes necessidades com realismo e criatividade.


Continuar a ler aqui.

Lobo, M. C. (2007). A capacidade competitiva das cidades e da politica da habitação. Planeamento , nº4, p. 7.

4 | comentários:

Pedro disse...

Estava mesmo numa de "Xi.... texto tão grande... leio depois... (ou não)"
Mas ainda bem que afugentei a preguiça mental!
Como tu dizes, o homem fala bem! Fala bem e tem razão!

mariacarmo disse...

Por estas razões e por outras, é que vivo numa aldeia... E dado que também não tenho carro, pelo que bem foi descrito devo ser um bicho em vias de extinção...

Anónimo disse...

Posso dizer lhe que foi um professor que mudou a minha maneira de pensar as cidades, a minha responsabilidade social aumentou com ele.

anabananasplit disse...

Excelente.